Postado em 08/04/2022 08:32 - Edição: Marcos Sefrin
Por que o “veganismo” liberal “lutar contra o sofrimento animal” sem combater o especismo não faz sentido senão defender interesses corporativos
Algo que eu tenho percebido com bastante frequência no discurso do “veganismo” liberal (VL) é o (suposto) objetivo de acabar com a exploração animal sem combater o especismo.
Vejo isso sempre quando um defensor da “vertente” argumenta que toda estratégia, independente de ser ou não antiespecista, seria válida para “reduzir o sofrimento animal” no mundo e o número de animais explorados.
Eu convido você a entender, junto comigo, por que essa metodologia, que separa a luta contra a exploração e matança de animais na pecuária e na pesca das suas bases éticas e políticas, não faz sentido, politicamente falando, e tende a abrir o caminho para interesses bastante escusos.
A proposta de “reduzir o sofrimento animal” sem combater o especismo
Um dos objetivos que o “veganismo” liberal mais declara é a “redução do sofrimento animal”, geralmente como um “meio” para uma futura eliminação completa da exploração pelo menos dos animais “de consumo”.
Podemos ver isso em vários sites defensores dessa corrente, como Mercy For Animals, Animal Equality e o blog Veganismo Estratégico.
Entre os métodos que os liberais usam com esse intuito, estão, segundo o mesmo blog:
Só que, curiosamente, esse discurso não vem acompanhado do reconhecimento daquilo que causa e fundamenta o fenômeno moral, social, econômico e cultural do uso de animais para interesses humanos: as crenças do especismo.
É muito raro que sites de VL falem dos pressupostos morais que fazem as pessoas acharem certo e necessário explorar animais e não vislumbrarem um futuro sem esse costume.
Até porque, segundo o artigo linkado acima do blog Veganismo Estratégico, debater os temas ético-morais caros ao veganismo seria meio que um “desperdício” de tempo e energia em comparação com os métodos “pragmáticos” focados nas piores consequências do uso dos animais não humanos.
A “defesa animal pragmática” sem antiespecismo não faz sentido
Uma defesa dos animais não humanos e do veganismo sem a base ética antiespecista tende a não ter uma razão política de existir.
Afinal, não faz sentido nenhum defender o fim da exploração animal pensando nos animais sem se saber por que explorá-los é ruim e errado.
Sem o antiespecismo, por que comemorar a redução da exploração e do sofrimento animal? Por que se preocupar com o sofrimento de seres que não se está interessado que deixem de ser considerados inferiores e menos capazes de sofrer e ter desejos do que os humanos?
Sem defender que sejam tratados como moralmente iguais aos humanos e tenham direitos como a integridade física e a liberdade, por que se acredita que os animais não deveriam sofrer?
Fica uma defesa vazia de sentido, algo que não se sustenta.
A não ser que…
O provável verdadeiro interesse que substitui a ética antiespecista na motivação liberal de “combater o sofrimento animal”
Defesa de interesses corporativos de empresas exploradoras de animais: a motivação que substitui o objetivo de combater o especismo no “veganismo” liberal
…o que faz os “veganos” liberais defenderem o “fim da violência contra os animais” seja algo bem mais egoísta e orientado a interesses econômicos do que os mais leigos acreditam.
Que o digam as multinacionais que estão começando a lucrar com seus ultraprocessados à base de plantas e/ou prometem eliminar as formas mais óbvias de violência contra os animais de sua cadeia de produção, mas não têm nenhum plano para abandonar a postura corporativa especista.
No caso dos primeiros, a “redução do sofrimento animal” a qualquer custo, ao fazer com que mais pessoas consumam industrializados plant-based sem concordar com a igualdade moral entre humanos e animais não humanos, está começando a impulsionar um boom de vendas.
Segundo Luciana Brafman, no seu blog no site da Veja Rio, “em 2027, conforme a Emergen, o mercado mundial de proteína [industrializada] à base de plantas vai girar US$ 16,6 bilhões, ou aproximadamente R$ 90 bilhões. Em 2019, o tamanho era de US$ 9,9 bilhões.”
Empresas como JBS e BRF entraram com gosto nesse mercado que de “vegano” só tem o nome, com a perspectiva de lucrar ainda mais enquanto amplificam sua cadeia de abate de animais e o mercado de carnes.
E estão livres de serem incomodadas pelos “veganos” liberais, que dizem que essa agroindústria macabra, por mais animais que mate nos abatedouros e na destruição do meio ambiente, “não é sua inimiga”.
Não é só o ramo especista envolvido na indústria de substitutos ultraprocessados de alimentos de origem animal que está festejando lucros. Também faturam ou faturarão alto os pecuaristas e as gigantes do varejo que, influenciados pelas ONGs “pragmáticas”, estão optando por fornecedores adeptos do “bem-estar animal”.
Tanto é que a Embrapa prevê que, em 2040, longe de perder o poder ou ser abolida, a pecuária de corte terá a adesão generalizada ao bem-estarismo como tendência para manter e impulsionar seus lucros. Em outras palavras, ao invés de representar o declínio da exploração animal, isso irá fazê-la sobreviver às demandas dos “consumidores conscientes” especistas e às mudanças do mercado.
Segundo o site Ovo Online alguns anos atrás, “as vendas de ovos caipira e orgânicos crescem em ritmo duas vezes maior do que as vendas de ovos convencionais no Grupo Pão de Açúcar, maior varejista do país.” Essa corporação é uma das que têm entrado em acordo com ONGs como Mercy For Animals para adotar essas reformas.
Tudo isso nos dá um indicativo de que, no VL, os interesses de manutenção e aumento dos lucros com a atividade pecuária e com ultraprocessados “veganos” de origem especista substituem o antiespecismo como grande razão para defender o “fim do sofrimento animal”.
Em outras palavras, é um “veganismo” que defende e protege os exploradores de animais e, por isso, promove a conservação da exploração animal.
Conclusão
O “veganismo” liberal nos mostra que, sem o alicerce ético do combate ao especismo, a defesa dos animais não humanos acaba fatalmente se convertendo numa defesa da reforma e atualização da exploração animal e, por tabela, na proteção dos interesses dos exploradores dos animais “de consumo”.
Quando não se tem o objetivo de fazer com que os seres humanos parem de tratar os animais não humanos como sua propriedade, o “combate à violência contra os animais” passa a visar não o fim desta, mas sim a sua regulação e otimização.
Afinal, os últimos continuam sendo vistos como inferiores aos primeiros, portanto não haveria razão para parar de explorá-los, e “veganos” liberais já declararam não se dispor a debater os “temas morais” caros ao veganismo.Não se deixe enganar por quem diz defender os animais mas não tem como objetivo construir um futuro sem especismo e sem a coisificação da vida animal. Essas pessoas muito provavelmente estão defendendo interesses que passam longe da luta por um mundo mais ético, sem hierarquias morais e sem as crueldades capitalistas.
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Autor dos blogs Veganagente e Consciência Autista e dos livros 'Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética', 'Direitos Animais e Veganismo: consciência com esperança' e 'Manual de sobrevivência para veganos e vegetarianos'.
Ref.: https://veganagente.com.br/
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